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Sandy e Junior fazem primeiro show em São Paulo |

E lá se vão 18
anos de sofrimento da Maria Chiquinha, com sua cabeça cortada no fim da música
que Sandy e Junior Lima cantaram pela primeira vez em 1989, no programa
"Som Brasil" da Rede Globo. Desde então, a dupla construiu uma das
carreiras mais bem-sucedidas da música popular brasileira -- carreira esta que
pretendem encerrar com a turnê "Acústico MTV Sandy & Junior",
cujo primeiro show paulistano aconteceu no último sábado (29), no Via Funchal.
Com lotação esgotada (3071 ingressos na configuração em mesas, de acordo com
a organização), a casa teve seu primeiro momento de alvoroço antes da
abertura das cortinas, quando Noely, a mãe da dupla, teve a infeliz idéia de
ir sentar-se em uma mesa no meio da platéia, acompanhada dos candidatos a nora
e genro Sheila Santos e Lucas Lima. Cercada por fãs de todas as idades querendo
tirar fotos, a família teve que se abrigar perto da mesa de som para que o show
pudesse começar. Era a primeira de várias provas de fanatismo que o público
daria na noite.
Às 22h30, a banda que acompanha a dupla (dois violões, baixo, teclado, bateria
e uma backing vocal) aparece puxando a canção "Não Dá Pra Não
Pensar", causando uma onda de gritos que dobra de tamanho quando Sandy e
Junior entram no palco, um de cada lado. A decoração é simples, apenas um
grande telão cercado de quadrados que mudam de cor conforme a iluminação
empregada. Sandy veste um modelito preto que valoriza seu corpo (a cantora foi
candidata a "Gostosa do Ano" no VMB 2007, mas perdeu para Claudia
Leitte do Babado Novo) e Junior uma camisa estampada de gola, além do violão.
Eles não esperam sequer a segunda música para pedir o coro da platéia, que
canta o interlúdio "E se você não vier / eu não vou agüentar / se você
demorar / de tristeza eu vou chorar" sem errar uma palavra.
Em seguida vem "Super-Herói", cantada por Junior, e já é perceptível
que não há como a noite dar errado: os fãs estão ali dispostos a tornar seus
últimos momentos com a dupla inesquecíveis, nem que tenham que chorar e perder
a voz para isso. O curioso arranjo reggae de "Nada Vai Me Sufocar"
mantém o clima de festa, com Junior voltando ao violão e se divertindo com a
banda. Mais calma, "Ilusão" faz a platéia trocar os gritos pelas
palmas, mas todos seguem acompanhando.
A cantora e o músico
Não é novidade dizer que Sandy canta com perfeição técnica, mas vale notar
que se antes havia um código para que chamasse o playback (apontar para o
horizonte, diz a lenda) atualmente ele é desnecessário, ou pelo menos
imperceptível. A cantora executa vocalizes difíceis nas músicas seguintes,
"Inesquecível" e "Inveja", sem nunca perder o fôlego nem
desmanchar o indefectível sorriso -- é de se imaginar até que os músculos de
sua face durmam na mesma posição, tamanho costume de sorrir.
Já Junior, cujo violão até o momento mal era ouvido nos arranjos, tem seu
momento percussionista em "Quando Você Passa (Turu Turu)". Na seqüência
vem a música que compôs para o "Acústico MTV", "Segue em
Frente", com letra reflexiva acima da média sobre separação (inevitável
pensar no fim da dupla com os versos "A gente segue em frente / e o mundo
olha por nós"). Em um contraponto não muito brilhante aos "mares que
te cercam" de que fala a música, o telão mostra uma animação composta
por tubarões. De qualquer forma, se é um sinal da direção que o rapaz
pretende para seu trabalho solo, é positivo.
Convidados
Outra música nova, dessa vez composta por Sandy e o namorado, "Abri os
Olhos" traz ao palco os mesmos convidados vistos no VMB: o vocalista Lucas
Silveira da banda Fresno e o guitarrista Marcelo Gross, da Cachorro Grande ("surpresa
especial e exclusiva do show de estréia", disse Junior ao microfone).
Era o novo rock brasileiro prestando respeitos a dois veteranos da música
popular, com uma canção que, como afirmou o próprio Lucas Silvera, "é
boa mesmo".
Marcelo Camelo não apareceu, mas Sandy cantou e Junior tocou a introdução
feita pelo ex-hermano para "As Quatro Estações". O momento é
bonito, mas com a entrada da bateria, o novo arranjo da música lembra um Kid
Abelha menos inspirado. Melhor pop aparece em "Estranho Jeito de
Amar", quando a dupla canta de pé e Junior faz um modesto mas eficiente
solo no violão. É um som com produção de nível internacional, com tudo em
seu lugar, e até os homens da platéia (antes relutantes em cantar junto)
aproveitam o escurinho para acompanhar a letra.
Tudo para vocês
No mais emocionado dos vários agradecimentos que faz durante o show, Sandy
dedica à platéia em seu nome e do irmão a música "Tudo Pra Você".
Como que em resposta aos fãs que traziam cartazes contra a separação da
dupla, a cantora diz que "o que está para acontecer não é um fim, e
sim um recomeço". O público faz um barulho e tanto, entre choros e
aplausos.
Mesmo com toda emoção, vários momentos "descontraídos" traíam um
quê de ensaiados, como quando Sandy se apóia no ombro do irmão para cantar
"Alguém Como Você", de George Israel (Kid Abelha). Não que a platéia
se importasse, já que um refrão inacreditavelmente pueril como o da música
seguinte, "A Lenda", só pode ser cantado por quem crê no amor bucólico,
puro e ingênuo que a dupla transmite. E três mil pessoas cantaram, felizes.
Mudança de figurino
Apagam-se as luzes e o telão mostra a figura do ator Lima Duarte apresentando
aquele "Som Brasil" de 1989, no qual Maria Chiquinha foi decapitada
pela primeira vez. O sistema de som começa a emitir algo que se parece com
techno, enquanto uma bela edição de imagens de arquivo, sem ordem cronológica,
mostra Sandy e Junior em diversos momentos da carreira, tocando para platéias
imensas e participando de todos os programas de televisão possíveis de puxar
pela memória. É a lembrança que estamos diante de um fenômeno de
popularidade com poucos paralelos no país.
A banda volta com "Cai a Chuva", e Sandy e Junior reaparecem com novos
figurinos: ele de camiseta branca e boné inclinado, ela com uma blusa amarela
com detalhes brilhantes, beirando o duvidoso. Vêm "Replay" (outra das
músicas em que a dupla reflete sobre a própria carreira), o registro da
tentativa internacional "Love Never Fails" e a engraçada
"Enrosca" -- que se no original tinha um clipe imitando
"Scream", dos também irmãos Michael e Janet Jackson, na versão acústica
se tornou um blues estranhamente parecido com "Man! I Feel Like a
Woman!", da countrystar canadense Shania Twain.
A reta final do show tem o hit "Desperdiçou", com arranjo
provavelmente influenciado pelo trabalho de Junior na banda Soul Funk, e um
pout-pourri de sucessos cantado entre os refrões de "Vamo Pulá", no
qual a platéia, sempre obediente às ordens de Sandy, levanta-se das cadeiras e
sai do lugar pela primeira vez.
Enfim, Maria Chiquinha
Após uma curta pausa, coberta de gritos de "mais um", a dupla volta
sozinha para o bis. É quando acontece o momento simbólico da noite: Junior
puxa "Maria Chiquinha" no violão, e os irmãos executam o
pergunta-e-resposta mais famoso da música brasileira.
A letra, composta por Geysa Bôscoli e Guilherme Figueiredo em 1961, conta o diálogo
de Maria Chiquinha e Genaro, que desconfia da infidelidade da companheira e
termina por cortar-lhe a cabeça, não sem antes a moça perguntar: "Que
q'ocê vai fazer com o corpo, Genaro meu bem?". Junior, no papel de Genaro,
parece compreender o absurdo de sua resposta (ainda mais pelo fato de estar
cantando para sua irmã), e ri com sinceridade antes de cantar "O resto?
Pode deixar que eu aproveito".
Pela primeira vez rindo, e não apenas sorrindo, é Sandy que faz a observação
que arranca mais risos da platéia: "Caramba, são 17 anos de tortura da
Maria Chiquinha..." (ela conta os anos de carreira a partir do primeiro
disco, mas se contarmos que o "Som Brasil" passou em 1989, são 18
anos). É preciso dar o mérito para alguém que já cantou a mesma música mais
de mil vezes e ainda consegue se divertir com isso.
O único momento verdadeiramente descontraído do show passa rápido, porém,
dando lugar novamente ao profissionalismo com outra performance de "Não Dá
Pra Não Pensar". Até o interlúdio cantado pela platéia se repete à
perfeição, dando a idéia de que, para citar a própria Sandy, estamos todos
"presos em um replay". Os irmãos se abraçam, e uma mensagem de "Foram
17 anos maravilhosos, muito obrigado!" no telão provoca o mais sonoro
aplauso da noite.
Às 00h15 de sábado, a dupla Sandy & Junior deixa o palco, um pouco mais próxima
do fim. Após 17 anos mantendo uma rotina de shows perfeitos e generosos para um
público cativo, é de se imaginar que, daqui para frente, ambos seguirão
caminhos separados por um simples motivo: não há mais nada para provarem nesse
formato. Que venha um pouco de imprevisibilidade à carreira dos dois, que só há
de lhes fazer bem.









Fonte: UOL